Compondo com as Escrituras

Compondo com as Escrituras
"Essa prática, além de trazer edificação e fortalecimento na fé, também irá nos ajudar a expressar biblicamente sobre nossos sentimentos e sobre a ação poderosa de Deus em nossa vida."

Quando tratamos do assunto composição, podemos nos direcionar para muitos lados, pois é um assunto muito vasto, embora, na minha opinião, muito carente de material conceitual e didático a respeito dele. Neste artigo quero tratar de uma parte da composição que, dentro do contexto de música congregacional para o culto público, é o de maior importância, que é o conteúdo literário.

Vemos hoje canções sendo cantadas nas nossas igrejas com conceitos teológicos equivocados e muitas vezes em contradição com a Sagrada Escritura. É preciso que compositores compromissados com a Igreja e com a autêntica Fé em Jesus tomem coragem e componham canções bíblicas, com coerência teológica e confessional para a edificação da igreja local, brasileira e até universal.

À princípio pode parecer que este é um trabalho complicado e cansativo, mas quero que ao final deste artigo o leitor possa perceber que canções como as que citei acima são frutos de uma vida compromissada com Deus e com sua Palavra.

Cantando as Escrituras

Um dos pontos da Reforma Protestante foi a autoridade suprema das Escrituras (Sola Scriptura). E os reformadores apontaram para o fato que se vamos cantar no culto público, devemos cantar a Palavra. Portanto, creio ser de extrema importância que nossas canções tenham conteúdo bíblico. E não somente no contexto, mas é de grande valor para a igreja cantarmos trechos da Bíblia na íntegra.

Como escreveu o apóstolo Paulo Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (2Tm 3.16 – ARA). Portanto precisamos cantar somente aquilo que está nas Escrituras.

Os teus decretos são o tema da minha canção em minha peregrinação (Sl 119.54 – NVI).

O livro dos Salmos nos ensinam muito a respeito de composição e nos proporciona vasto conteúdo para compormos canções para nossas igrejas locais. Nos Salmos temos orações, súplicas, confissão, louvor, ações de graça, etc. Podemos dizer que é o hinário do Antigo Testamento. Os judeus sempre utilizaram os Salmos para a adoração a Deus, seja em suas orações particulares como no culto público. Esse era o hinário de Jesus e dos apóstolos. O que você acha que Jesus e seus discípulos cantaram depois da Ceia (Mt 26.30)? Ou o que Paulo e Silas cantaram na prisão (At 16.25)?

Creio que cultivarmos o hábito de cantar os salmos nos nossos cultos trará edificação para a igreja, pois estaremos cantando e orando a própria Palavra de Deus. Veja o que o cronista escreveu na reforma do rei Ezequias: “O rei Ezequias e os chefes ordenaram aos levitas que louvassem o SENHOR com as palavras de Davi e de Asafe, o vidente. E eles cantaram louvores com alegria, e se inclinaram e adoraram” (2Cr 29.30 – Almeida Século 21).

Acima eu citei o uso dos Salmos porque eles foram feitos para este propósito e possuem todas as formas de louvor e oração que podemos fazer. Mas isso não quer dizer que devemos cantar apenas os Salmos, embora muitos teólogos e pastores defendam esse ponto. Existem citações de canções na Bíblia que não estão no livro dos Salmos, por exemplo, o cântico de Moisés em Ex 15.1-20; e no Novo Testamento temos o Magnificat, cântico de Maria em Lc 1.46-55; o Benedictus, cântico de Zacarias em Lc 1.67-79; o Gloria in excelsis Deo em Lc 2.13,14; o Nunc dimittis, o cântico de Simeão em Lc 2.28-32. E existem outros textos que, de acordo com os estudiosos, são possivelmente cânticos cantados pelos nossos irmãos do primeiro século como 1Tm 3.16, 2Tm 2.11-13, Ef 1.3-14.

Todos os textos citados e ainda muitos outros do Antigo Testamento quanto do Novo Testamento se encaixam perfeitamente no canto congregacional, afirmando nossa fé na providência do Deus Soberano, na justificação em Jesus Cristo e na santificação pelo Espírito Santo. Vamos cantar as Escrituras, vamos cantar a Palavra que é poderosa para salvar (Rm1.16) e nos regenerar para uma vida incorruptível (1Pe 1.23).

Praticando a composição

Muitas canções que muitos compositores compuseram, assim como eu mesmo, surgiram em momentos de meditação na Sagrada Escritura. Creio que não preciso dizer que nós como cristãos precisamos ter o hábito de ler a Bíblia todos dias, pois se não o fazemos há algo de muito errado com a nossa fé e o nosso cristianismo. Mas um hábito que creio ser muito edificante para o crente é o de ler o livro dos Salmos todos os dias. Não vou falar aqui sobre os benefícios da leitura do Saltério pois não é o objetivo, quero apenas trazer algumas sugestões para nós compositores.

Em primeiro lugar, é importante encontrar um momento de quietude num determinado período do dia. Escolha um salmo e leia atentamente, depois releia algumas vezes. Ore este salmo exatamente como está escrito, depois pode-se orar com simplificação do vocabulário para uma melhor aplicação na vida pessoal. Depois deste primeiro momento, volte ao salmo e tente cantá-lo criando uma melodia. O importante aqui é entender o que o salmista estava sentindo e trazer isso para a sua realidade. Assim você poderá cantar de forma espontânea e livre o que está naquele salmo, fazendo dele algo real. O exemplo acima foi com um salmo, mas você pode escolher outros trechos da Bíblia e repetir este processo.

Essa prática, além de trazer edificação e fortalecimento na , também irá nos ajudar a expressar biblicamente sobre nossos sentimentos e sobre a ação poderosa de Deus em nossa vida.

Daremos continuidade nesse nosso estudo falando a seguir sobre a construção da melodia.

Por: Samuel Fratelli 

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