A influência da reforma protestante na adoração

A influência da reforma protestante na adoração
Leia o artigo escrito pelo Samuel Fratelli.

    A reforma protestante mudou drasticamente a história da igreja em todos os aspectos. Mas a preocupação dos reformadores era principalmente a reforma da vida, da adoração e da doutrina à luz da Palavra de Deus. Neste artigo vamos pensar em alguns pontos significativos que a reforma protestante trouxe para a adoração cristã.

O contexto religioso

    É importante salientar antes de tudo, que o movimento da reforma acontece num período de grande envolvimento religioso por parte do povo, porém com pouco ou nenhum conhecimento do que era realmente o evangelho. A adoração no período medieval, era centralizada na missa que era um rito realizado pelos sacerdotes e a congregação apenas observava o que estava acontecendo. A missa toda era em latim, que era um idioma apenas utilizado pelo clero e pelos intelectuais, impossibilitando as pessoas de entenderem o que era falado nas missas. As Escrituras Sagradas eram deixadas totalmente de fora das missas. O que era lido eram apenas alguns textos papais de interpretação da Escritura, visto que somente ele era autorizado a interpretá-la.

   A música litúrgica no decorrer dos séculos foi ficando cada vez mais aprimorada, com o uso da polifonia e da introdução do órgão nas catedrais. Porém, também foi ficando cada vez mais complexa, mais focada na desenvoltura da execução musical do que no seu conteúdo e objetivo primário. É claro que para o povo, o canto já não tinha muito sentido, uma vez que era cantado em latim e eles não entendiam uma palavra sequer do que era cantado. Mas com a complexidade, até o próprio conteúdo lírico foi desprezado para a valorização da melodia e da rítmica.

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Aspectos históricos da Reforma Protestante

    A reforma da igreja teve seus primeiros movimentos séculos antes de Martinho Lutero (1483-1546) fixar as suas 95 teses na porta da igreja de Wittenberg. Homens como Roberto Grosseteste (1168-1253), John Wycliffe (1320-1384) e John Huss (1369-1415) enfrentaram a liderança papal porque entendiam que a Bíblia deveria ser ensinada às pessoas e na língua popular. Podemos afirmar, portanto, que em primeiro lugar a reforma protestante foi um movimento de retorno às Escrituras. Sendo assim, a mudança na liturgia era essencialmente necessária.

   Tanto Lutero na Alemanha, como Ulrico Zuinglio (1484-1531) na Suíça começaram a pregar o Novo Testamento em suas igrejas. O ponto de ignição foi diferente entre os dois, mas os levaram a um estudo aprofundado das Escrituras que culminou num entendimento real do evangelho. E isso precisava ser ensinado às pessoas. Sendo assim, a missa romana constituída por leitura de orações e de textos papais pelos sacerdotes e de músicas cantadas pelos cantores foi substituída pela leitura pública das Escrituras e sua explicação, a pregação.

   Na tradição luterana, muito do que era usado na missa romana permaneceu, como o uso de velas e vestimentas sacerdotais. Porém na tradição reformada, influenciada por Zuinglio, todos os elementos foram excluídos. Até os órgãos foram retirados, pois Zuinglio desaprovava a música instrumental na igreja, temendo que sua beleza tentasse as pessoas a idolatrar a própria música. Sendo Lutero um músico exímio e amante da boa música, ele se preocupou extremamente com a música na liturgia. Ele é lembrado como aquele que deu a Bíblia e o hinário ao povo alemão, na sua própria língua. Parece que ele era indiferente ao uso do órgão na adoração, que era usado para dar o “tom” ou “entonação” para os cânticos.

A segunda geração da Reforma Protestante

   João Calvino (1509-1564) pertenceu à segunda geração da Reforma quando o movimento já estava fragmentado e seguiu a tradição reformada nos moldes de Zuinglio. De 1538 a 1541, ele pastoreou uma pequena igreja em Estrasburgo, onde teve contato com Martin Bucer (1491-1551), que influenciou muito a sua teologia principalmente sobre a doutrina do Espírito Santo e eclesiologia.

    Calvino ficou impressionado com o rito alemão de Bucer e, de acordo com o que ele mesmo admitiu, “tomou emprestada a maior parte dele” para formar a sua liturgia francesa em 1540. Calvino se queixava do “tom frio” dos cultos, pois a adoração reformada não tinha a presença de cânticos, e quando esteve em Estrasburgo se impressionou com as versões alemãs dos salmos que encontrou ali. Assim, ele metrificou vários salmos em francês e usou melodias de Mattheus Greider e Wolfgang Dachstein para cantá-los. Os salmos eram cantados pela congregação em uníssono e sem acompanhamento.

A liturgia na reforma anglicana

    Na Inglaterra, na reforma anglicana, Thomas Cranmer (1489-1556) arcebispo de Canterbury, se determinou em 1547 a elaborar uma liturgia inglesa realmente reformada. Em 1549 escreveu o Livro de Oração Comum, como o próprio título já indicava, a adoração passava a ser congregacional e não sacerdotal. Mais tarde, surge dentro da igreja anglicana um grupo que ficou conhecido como Puritanos. Eles defendiam a ideia de uma separação total entre a igreja e o estado, e buscavam uma simplificação da liturgia, pois a igreja anglicana seguia em muito elementos e o formato litúrgico romano. É do movimento puritano que surgem as denominações presbiterianas, congregacionais e batistas.

Aspectos doutrinários

    No decorrer da história foram criados slogans da reforma, que nenhum dos reformadores cunhou, mas que com base nas doutrinas centrais da reforma, se tornaram o ponto de referência do que é ser verdadeiramente evangélico, os chamados 5 Solas. Portanto, esses cinco pontos devem reger a nossa adoração comunitária se pretendemos participar de um culto verdadeiramente evangélico com base na adoração da igreja primitiva.

    Como já foi citado acima, a reforma foi principalmente um movimento de volta às Escrituras. Logo, além da leitura bíblica pública e da pregação que deveriam agora fazer parte da liturgia, a Bíblia deve também reger o que é o culto propriamente dito e quais os elementos que devem fazer parte dele. Esse princípio ficou conhecido como sola Scriptura, que significa somente as Escrituras. Aqui é importante ressaltar uma diferença significativa entre as tradições luterana e reformada. Ambas seguem o sola Scriptura, porém com uma interpretação um pouco diferente.

O que é permitido durante o culto?

   A tradição luterana defende a ideia de que no culto é permitido tudo aquilo que a Bíblia não proíbe. Por isso a continuidade do uso de velas e de outros elementos, uma vez que a Bíblia não fala contra o uso dessas coisas. Já a tradição reformada, no que foi chamado de princípio regulador, define que só é permitido no culto aquilo que a ela diz que pertence ao culto, logo se na Bíblia não existe o uso de velas na adoração, concluí-se que não se deva usar. Assim, além da Palavra de Deus se tornar o centro do culto, tendo esta ênfase na leitura bíblica e na pregação, tudo o mais que ocorre no culto deve ter base na própria Escritura.

   Portanto, as canções devem ser a Palavra de Deus cantada. Deste ponto surge uma discussão pertinente, mas que não cabe dentro do escopo deste texto, se devemos cantar apenas textos bíblicos metrificados e musicados ou se podemos compor letras a partir de nossas experiências e interpretações bíblicas. Outro ponto forte da reforma foi a questão da justificação pela fé, sola Fide, ou, somente pela fé.

As indulgências e o foco em Cristo nos cultos

    Lutero começou sua jornada buscando uma resposta bíblica para a justificação, pois de acordo com a teologia católica medieval a justificação provinha da graça liberada pelo papa e distribuída pelos sacerdotes na missa. E não podemos nos esquecer da questão das indulgências, motivo pelo qual Lutero escreveu as 95 teses. Isso também mudou drasticamente a ênfase do culto. Se antes a missa tinha um ar de medo e pavor por causa de um Deus irado e punidor, agora os cultos se tornaram uma celebração pela justificação alcançada não por atos humanos, mas pela promessa da Palavra de Deus de que a justificação era um ato divino.

   Assim, nossa adoração deve refletir esta doutrina, de que somos justificados somente pela fé e não por obras. Consequentemente o culto passa a ser uma resposta ao reconhecimento de algo que já foi feito em nosso favor e não um fato gerador de justificação. Ligado diretamente à justificação pela fé está o sola Gratia, ou, somente pela graça. Se não depende nós a justificação e a salvação, sendo nós pecadores diante de um Deus santo, podemos declarar que é somente pela graça que um pecador pode ser justificado. Porque pela graça somos salvos, por meio da fé, e isto não vem de nós, é dom de Deus (Ef 2.8). O entendimento da graça deve nortear a nossa adoração também. O sola Gratia deve nos conduzir a uma postura de humildade diante de Deus.

Culto Cristocêntrico

   O culto não é lugar de reivindicar qualquer coisa que seja, não é o um ato de troca que realizamos com Deus, mas é o reconhecimento de que o Deus criador dos céus e da terra é também o Deus todo gracioso, que amou o mundo de tal maneira que enviou o seu Filho unigênito para aqueles que cressem em seu nome pudessem se tornar seus filhos e receber a vida eterna. Desse ponto surge o quarto slogan, solus Christus, ou, somente Cristo. Toda a Escritura é sobre Cristo. O Antigo Testamento aponta para Jesus, os evangelhos são sobre Jesus, e os demais escritos do Novo Testamento são fruto da obra e dos ensinos de Jesus. A justificação é pela fé na obra de Cristo, a graça nos alcançou por meio de Cristo, logo Jesus Cristo é o centro de todas as coisas.

    Como escreveu o apóstolo Paulo, que foi da vontade de Deus que nele habitasse toda a plenitude, e que por meio dele reconciliasse consigo todas as coisas (Cl 1.19-20) e que fez convergir em Cristo todas as coisas (Ef 1.10). Sendo assim, o nosso culto deve ser cristocêntrico.

    Como ouvi certa vez de um professor, se algum judeu entrar em nosso culto de adoração e não ficar incomodado, é porque Cristo não é o centro de nossa adoração. E isso é preocupante! Fica evidente nos escritos do Novo Testamento que a igreja primitiva colocava todo o foco da adoração em Jesus Cristo. Isso fica claro tanto na pregação de Pedro no Pentecostes, como em todos os escritos de Paulo, que de acordo com os estudiosos   contém vários trechos de cânticos e confissões utilizados nos cultos da igreja do primeiro século.

Deo Gloria “somente a Deus a glória”

   O quinto ponto é soli Deo Gloria, ou, somente a Deus a glória. Aqui entendemos que a vida cristã é uma vida para a glória de Deus. Tudo o que fazemos deve ser para a glória dele. Aqui lembramos também dos escritos do apóstolo, seja comendo, seja bebendo, seja fazendo qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus (1Co 10.31). Johann Sebastian Bach (1685-1750) que era luterano e dedicou grande parte de sua vida à música sacra, colocava no final de cada uma de suas partituras a sigla S.D.G. (soli Deo Gloria), pois entendia que todo o seu trabalho fosse para a utilização no culto ou na corte, era primeiramente para a glória de Deus.

O nosso culto

Portanto, nosso culto deve também ser para a glória de Deus. Por isso em nossa adoração comunitária precisamos exaltar a sua Palavra e estudá-la com ânimo. Devemos proclamar e assim cantar com todo o nosso fôlego sobre a maravilhosa graça de um Deus soberano e todo-poderoso que nos alcançou e nos justificou por meio da obra de seu Filho Jesus Cristo que entregou graciosamente sua vida em nosso favor e que pela fé recebemos.

“Porque todas as coisas são dele, por ele e para ele. A ele seja a glória eternamente! Amém.” (Rm 11.36 – AS21)

Samuel Fratelli

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