Sacrifícios de Louvor

Sacrifícios de Louvor
"A ação salvífica de Deus nos transporta para o Reino da Luz, o Reino de Seu Filho Amado, passamos a fazer parte de uma nação santa".

 

“Por meio de Jesus, portanto, ofereçamos continuamente a Deus um sacrifício de louvor, que é fruto de lábios que confessam o seu nome.” (Hb 13.15 – NVI)

Antes de entrarmos no tema central deste artigo sobre os sacrifícios de louvor que oferecemos a Deus como diz o verso acima, é importante entendermos o contexto no qual ele está inserido. A epístola aos Hebreus, obviamente é destinada primeiramente aos judeus, por isso o escritor faz uma explanação pelo Antigo Testamento, sobre a Lei e os heróis da fé da história do povo israelita, trazendo a significância de todas essas coisas no centro do Evangelho que é Cristo e sua obra na cruz. O escritor frisa veemente que todo o sacrifício de sangue, bem como a função do sumo sacerdote tornaram-se itens obsoletos na Nova Aliança, pois Jesus, pela sua morte na cruz tornou-se o sacrifício definitivo e aspergindo o seu precioso sangue tornou-se o sumo sacerdote definitivo.

“Ao contrário dos outros sumos sacerdotes, ele não tem necessidade de oferecer sacrifícios dia após dia, primeiro por seus próprios pecados e, depois, pelos pecados do povo. E ele o fez uma vez por todas quando a si mesmo se ofereceu” (Hb 7.27). “Mas quando este sacerdote acabou de oferecer, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à direita de Deus” (Hb 10.12).

Após ter definido estes pontos importantíssimos a respeito do nosso relacionamento com Deus através de Jesus, no verso 15, o escritor nos exorta a oferecermos a Deus um sacrifício de louvor. Mais uma vez lembrando-se que o texto é destinado aos judeus, um povo que tinha a religião e todos os seus rituais no centro de suas vidas, onde adorar significava sacrificar, e é importante salientar este ponto, pois assim entenderemos melhor o significado do sacrifício de louvor. Se,  conforme lemos acima, já não existe sacrifício a ser oferecido, fica claro o dilema que surgiria na mente deles, e que surge na nossa (pois somos impregnados de sentimento religioso): “o que faremos agora? Qual a minha obrigação? Qual a minha responsabilidade? O que eu preciso fazer?”.

O sacrifício apresentado agora já não é algo externo, e sim interno. E mais importante, este sacrifício não tem como objetivo gerar algo, nos purificar ou nos tornar propícios a Deus. Os sacrifícios de louvor, ou ações de graça, são uma resposta à salvação.

“Ofereça a Deus em sacrifício a sua gratidão, cumpra os seus votos para com o Altíssimo” (Sl 50.14 – NVI); ”Quem me oferece sua gratidão como sacrifício, honra-me, e eu mostrarei a salvação de Deus ao que anda nos meus caminhos” (Sl 50.23 – NVI).

As ações de graça, o oferecimento de honra e gratidão e o desejo de glorificar a Deus torna-se o nosso culto diário. Para Calvino “esta é a mais excelente forma de culto divino, e a única que deve ser preferível a todos os demais exercícios: que celebremos a generosidade divina através de ações de graça”1.

Ao contrário do que muitos pensam, sacrifícios de louvor não é ir a uma reunião da igreja, participar da celebrações cristãs e cantar canções a Deus. Embora isso seja autêntico do cristão e a Bíblia nos exorta em várias passagens a termos essas práticas, nossa vida de adoração vai muito além das reuniões semanais de nossas igrejas locais. O sacrifício de louvor “é fruto de lábios que confessam” o nome de Jesus. Em sua carta aos Romanos 10.1-10, Paulo escreve que para a Antiga Aliança era preciso seguir a Lei, uma justiça pela Lei. Mas agora, a justiça que vem pela fé está em confessar com sua boca que Jesus é Senhor e crer em seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos;

“Se você confessar com a sua boca que Jesus é Senhor e crer em seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo” (Rm 10.9).

Portanto, o sacrifício de louvor tem uma relação direta com a nossa conversão, que é resultado da obra de Jesus Cristo na cruz e da obra do Espírito Santo em nossos corações mediante a pregação da Palavra de Deus.

Essa relação do sacrifício de louvor e a conversão fica clara no início do verso que estamos estudando. O verso começa com uma oração significativa: “por meio de Jesus”, que estabelece um princípio. O sacrifício que oferecemos a Deus é por meio de Jesus, e somente através dele é que nossa adoração é aceitável. É por meio da fé no Filho de Deus, que abriu um novo e vivo caminho pelo seu sangue que podemos nos achegar a Deus (Hb 1.20). Agora fomos regenerados pelo Espírito Santo, somos novas criaturas.

“E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.” (2Co 5.17 – NVI) – e andamos numa nova perspectiva de vida.

A questão da primordialidade da fé não é neotestamentária somente. Em Hebreus 11, na lista dos heróis da fé vemos que aqueles homens foram justificados pela fé, não por obras. Focando no nosso assunto sobre sacrifícios, vemos que Abel ofereceu sacrifício pela fé (Hb 11.4). Ao ler o texto de Gênesis, percebemos que o que Deus aceita não é o sacrifício propriamente dito, mas a pessoa que está sacrificando, pois a Bíblia diz que “o Senhor aceitou Abel e sua oferta” (Gn 4.4), ou seja, Deus aceitou o sacrifício de Abel, pois este era aceitável a Deus por causa de sua fé.

O apóstolo Paulo entendia muito bem que não podemos buscar justiça própria, mas a que vêm mediante a fé em Cristo

“E ser encontrado nele, não tendo a minha própria justiça que procede da Lei, mas a que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé.” (Fp 3.9 – NVI)

Ao refletirmos sobre a expressão “frutos de lábios que confessam o seu nome”, temos que entender que não se trata de meras palavras. A nossa confissão de fé precisa transformar tudo que fazemos e pensamos, por isso Paulo nos exorta:

“Portanto, irmãos, rogo- lhes pelas misericórdias de Deus que se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês. Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem- se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.1-2 – NVI).

Jesus disse que “a boca fala do que está cheio o coração” (Mt 12.34), portanto quando o escritor aos Hebreus nos fala sobre o fruto dos lábios, ele está se referindo a um âmbito mais profundo, o coração do homem. A nossa fé em Jesus precisa ser determinante em nossas ações e volições. Como citou Augustus Nicodemus:

“Aquilo que uma pessoa professa e pensa controla suas atitudes, suas ações, suas escolhas e seus posicionamentos.”2

A fé que confessamos com os lábios devem ser muito mais que palavras, devem ser a realidade daquilo que vivemos.

O texto também nos diz que devemos oferecer sacrifícios de louvor continuamente.

“Dia após dia, todo sacerdote apresenta-se e exerce os seus deveres religiosos; repetidamente oferece os mesmos sacrifícios, que nunca podem remover os pecados” (Hb 13.11).

Esse verso nos mostra a prática do povo de Israel em relação aos sacrifícios. Devemos entender que nosso sacrifício de louvor não tem dia, horário ou local específicos para serem oferecidos, mas devem ser oferecidos diariamente, durante o dia inteiro e em qualquer lugar que estivermos. Podemos lembrar das palavras de Jesus à mulher samaritana em João 4, que agora não há um lugar específico para a adoração, mas o Pai procura verdadeiros adoradores que o adoram em Espírito e em Verdade.

O Sentido Horizontal

Os sacrifícios de louvor de acordo com o escritor aos Hebreus dizem respeito ao nosso coração, num sentido interno, a nossa relação com Deus, num sentido vertical e nossas atitudes, que possuem um sentido vertical, mas também se expandem num sentido horizontal.

Primeiramente entendendo que ao confessarmos Jesus com nossos lábios e dando graças pela nossa redenção, estaremos divulgando as obras maravilhosas de Deus, estaremos proclamando o Evangelho para as pessoas que estão à nossa volta.

“​Dêem graças ao Senhor, proclamem o seu nome; divulguem os seus feitos entre as nações” (Sl 105.1).

Mas este sentido horizontal toma também um outro viés. O verso seguinte diz o seguinte:

”Não se esqueçam de fazer o bem e de repartir com os outros o que vocês têm, pois de tais sacrifícios Deus se agrada” (Hb 13.16 – NVI).

Oferecer sacrifícios a Deus é fazer o bem. A Bíblia nos ensina que devemos fazer o bem a todos , mas principalmente aos da família da fé (Gl 6.10). A tradução da versão ampliada do verso 16 de Hebreus13 traz consigo essa mesma idéia. Portanto fica claro que neste sentido horizontal, ou seja, o modo como nos relacionamos e cuidamos de nossos irmãos é oferecer sacrifícios de louvor ao Senhor, e isto o agrada. Paulo conecta o nosso convívio em amor com o sacrifício de Cristo:

“E vivam em amor, como também Cristo nos amou e se entregou por nós como oferta e sacrifício de aroma agradável a Deus” (Ef 5.2 – NVI).

Repartir com outros, como diz o verso, tem uma referência mais ampla do que “fazer o bem”, implica comunhão e auxílio recíproco entre os homens. Quando pensamos em repartir o que temos, precisamos ir além das coisas materiais. Precisamos aprender a repartir nosso tempo, nossa atenção, nosso conhecimento e tudo o mais que possuímos pela graça de Deus.

A ação salvífica de Deus nos transporta para o Reino da Luz, o Reino de Seu Filho Amado, passamos a fazer parte de uma nação santa. Esse conceito agrega em si a nossa responsabilidade de cuidarmos uns dos outros, pois esse é o sentido original do princípio de nação. Essa responsabilidade, em princípio, abrange toda a humanidade, pois todos fomos feitos à imagem e semelhança de Deus. Esse princípio faz a nossa percepção sobre as pessoas que vivem conosco ou cruzam o nosso caminho ser transformada pela nossa confissão de fé. C.S. Lewis aponta de forma contundente a questão de que se tivermos noção de que todas as pessoas são seres eternos, nossos relacionamentos serão completamente alterados por essa verdade3.

Que possamos neste entendimento oferecer continuamente sacrifícios de louvor ao nosso Deus, por meio de Jesus Cristo, que nos fez

“Sacerdócio santo para oferecermos sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus” (1Pe 2.4-5)

Amando a Deus, invocando seu Nome, oferecendo-lhe ações de graça, fazendo o bem e amando as pessoas que Ele colocou ao nosso redor em sua Soberana Sabedoria.

Soli Deo Gloria

Notas

1. João Calvino, Hebreus, São José dos Campo, Editora Fiel, 2012, p.379.

2. Augustus Nicodemus, A Supremacia e a Suficiência de Cristo, São Paulo, Vida Nova, 2013, p.26.

3. C.S.Lewis, O Peso de Glória, São Paulo, Editora Vida, 2008, p.48.

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