Setembro amarelo: Porque falar de suicídio dentro das igrejas?

Setembro amarelo
"Naquele tempo eu já era cristã graças a Deus, mas nem por isso deixei de ser humana, embora a graça de Deus me sustentou e me sustenta até hoje. "

Precisamos falar destes assuntos

Depressão, síndrome do pânico, ansiedade, suicídio, por muitos anos foram assuntos evitados nas igrejas. Alguns desses assuntos foram demonizados, nunca tratados como patologias fisiológicas. É certo, que os casos eram mais raros e não necessariamente somente dentro da igreja, mas em geral , não se ouvia falar e nem tratar dessas questões de maneira mais aberta.

Toda e qualquer enfermidade é fruto da natureza caída do homem, o que isso quer dizer? Deus não nos criou para adoecer, mas não vou entrar no “Q” da questão especificamente, embora as doenças sejam fruto da desobediência lá no princípio de tudo.  O fato é que temos que lidar com todo o tipo de enfermidade e não sei porque a igreja trata algumas como humanas, naturais e outras demonizadas.  

Escolhi este tema hoje, aproveitando este mês onde a sociedade está falando , clamando por ajuda e começo este artigo com esta pergunta: Porque falar de suicídio dentro das igrejas? Resolvi contar um pouquinho da minha história, onde tive que lidar com depressão e tentativa de suicídio, com o objetivo de ajudar  você que está passando por isso ou tem alguém próximo nessa situação. Pode ser que você esteja boquiaberto ao ler esse último parágrafo por me conhecer. Te convido então, a navegar pelas linhas deste texto comigo em busca de nos aprimorarmos como auxiliadores daqueles que estão pedindo socorro hoje. 

Depressão, eu?

Adolescência é uma fase de crises existenciais, formação da identidade, busca de aceitação e etc, etc…  Aos quatorze anos como todo adolescente, estava eu vivendo minhas crises e junto com isso, vivi questões familiares muito difíceis, culminando no divórcio dos meus pais. Naquele tempo eu já era cristã graças a Deus, mas nem por isso deixei de ser humana, embora a graça de Deus me sustentou e me sustenta até hoje. Por causa dessa grande dor e talvez por ter uma pré-disposição genética para depressão,  tive o primeiro episódio que durou meses, mergulhada numa tristeza profunda e falta de ânimo pra tudo. 

Me lembro que as vezes eu me assentava ao piano e passava algumas horas  louvando à Deus , tocando piano e aquela era uma maneira de eu externar a minha dor.  Eu orava, chorava na presença de Deus e clamava para que aquela angústia saísse de dentro de mim. Naquele tempo, me senti muito perdida, sem chão e certamente todas as áreas da minha vida foram afetadas e exatamente nessa fase eu tentei me matar, tomando uma caixa de ansiolítico. Olhando hoje pra essa história, sei que na verdade eu não queria me matar, mas aquela foi uma maneira de ecoar um pedido de socorro. Eu não podia falar do assunto, porque tudo isso era tratado como algo espiritual. Entendo que somos seres espirituais e vivemos uma vida natural e tudo se mistura, mas o que eu estava vivendo não era espiritual. Eu estava sentindo uma dor profunda e não tinha quem me ouvisse. 

Nos anos seguintes outros episódios de depressão vieram, com um encurtamento de tempo entre um e outro. Até que aos 36 anos de idade, depois de lutar muito com isso e pelo pedido do meu esposo e orientação do nosso pastor na época, resolvi buscar uma ajuda médica e iniciei um tratamento que graças a Deus foi muito assertivo. Naquela época, só consegui entender a gravidade do meu caso, após alguns meses de medicação e tratamento psicológico. Você pode estar lendo este texto e pensando: porque você não orou e buscou cura? Orei, durante anos crendo na cura, e até hoje creio que Deus é o médico dos médicos, mas Ele não me curou, mas me sustentou e guiou em todo o processo. 

A quem recorrer? 

Talvez se naquele tempo quando tudo começou, eu tivesse encontrado alguém que me ouvisse e não me julgasse como se eu estivesse em pecado ou algo parecido, eu não teria desenvolvido um grau de depressão tão profundo nos anos subsequentes. Por isso, resolvi escrever este texto, principalmente direcionado à pessoas cristãs que estão na igreja, e que precisam entender como lidar com esta situação, que cresce a cada dia mais neste tempo.

Não quero de forma alguma criticar a igreja, mesmo porque eu faço parte dela. Porém gostaria de deixar aqui um alerta para que nos informemos melhor e sejamos um abraço amigo, um ouvido atento, um irmão, uma irmã, que se importa com alguém que precisa de ser acolhido e amado no momento de dor. 

Deixo aqui também uma palavra de encorajamento a você que tem se sentido mal, por estar passando por depressão e até mesmo tem tido pensamentos suicidas. Não se feche, busque ajuda , abra sua situação e receba o amor de Deus. Existe um jeito de sair dessa situação, seja, sendo curado sobrenaturalmente por Deus ou sendo guiado por Ele a alguém que seja um instrumento de cura em sua vida. 


Mesmo que eu andar por um vale de trevas e morte, não temerei perigo algum, pois tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me protegem. Salmos 23:4

Ultimamente temos tido notícia de líderes religiosos que tem se suicidado, e as vezes me pergunto porque eles não pediram ajuda a tempo? Será que no lugar de amor e acolhimento temos acomodado o julgamento? 

Ser cristão, não nos torna super-heróis! Sim, temos Cristo , o Espírito Santo habita em nós, mas ainda habitamos num corpo perecível que adoece e tem problemas. É óbvio que Deus é o nosso sustento em toda e qualquer situação e Ele é bom em todo o tempo, Ele nos olha como um pai amoroso olha para os seus filhos. Deus não vem nos julgar e sim nos redime com misericórdia e amor.  

Encerro esta reflexão com a pergunta que intitulou esse texto. Porque falar de suicídio nas nossas igrejas?

Por: Christie Tristão

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